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AMBIENTE ESTÉRIL E INCIDÊNCIA DE ASMA

Há tempos os pediatras mais velhos se queixam de que o número de casos de asma aumenta sem parar. De fato, os inquéritos epidemiológicos recentes demonstram que não se trata de simples impressão: cresce a prevalência de asma e alergias principalmente nas crianças das cidades.

Quais seriam as explicações para mais esse inconveniente da civilização?

Na Universidade de Michigan, o imunologista Gary Huffnagle expôs camundongos a três condições: introduziu fungos em seus intestinos, esporos de bolores em suas vias aéreas e administrou-lhes um antibiótico.     Os animais começaram a apresentar sinais de asma e de deficiência imunológica.

O mais intrigante foi que os fungos intestinais e os bolores introduzidos por via respiratória isoladamente permaneceram saudáveis até a administração do antibiótico.

Há vários anos, foi demonstrado que crianças da zona rural têm menos asma. Na cidade, as que frequentam creches, ou vivem em famílias numerosas, são menos suscetíveis do que os filhos únicos criados em ótimas condições de higiene.

Essas observações serviram de base para a “hipótese higiênica”, segundo a qual o estilo de vida relativamente livre de germes da criança de hoje, teria impacto negativo no funcionamento harmonioso do sistema imunológico.

Ao contrário dos estudos sobre a influência do mundo exterior, as pesquisas atuais têm procurado explorar o que se passa no ambiente interno do organismo: os germes que alojamos nos intestinos e no aparelho respiratório estariam envolvidos na gênese da asma?

Crianças nascidas por via cesariana, que vêm ao mundo em ambiente mais estéril, sem contato com a flora vaginal da mãe, bem como as que recebem muitos antibióticos, correm risco mais alto de desenvolver asma. Ao lado dos estudos em animais, esse dado sugere que a natureza dos germes que nos colonizam exerce papel importante na formação do sistema imunológico.

O quadro não é simples. Existem milhares de espécies de bactérias, fungos e vírus em nosso organismo, conjunto de seres denominado microbioma. O número de bactérias no corpo humano é maior do que o total de células existentes em todos nossos órgãos.

Crianças que desenvolverão asma são colonizadas por bactérias distintas. Seus microbiomas apresentam menor diversidade do que o das saudáveis. A estrutura da comunidade bacteriana, o número de bactérias e os locais em que elas se instalam são cruciais para o relacionamento que estabelecem com o sistema imunológico.

Uma das características do quadro microscópico pulmonar da asma é a presença de neutrófilos, tipo de glóbulo branco que geralmente aparece no combate às infecções. Como asma não é doença infecciosa, esse achado sempre deu impressão de estar fora de lugar.

Desde o ano 2000, um grupo da Universidade de Copenhague acompanha uma coorte de 400 mulheres grávidas para avaliar a incidência de asma em seus filhos. Culturas colhidas da garganta dos bebês de quatro semanas revelaram que 20% deles apresentavam bactérias patogênicas, que não foram tratadas porque não causavam sintomas.

Cinco anos mais tarde, cerca de 33% dessas crianças estavam com asma, contra apenas 10% das outras.

Aprendemos na faculdade que o tecido pulmonar é estéril, mas os estudos de sequenciamento de genomas bacterianos derrubaram esse dogma. Um deles detectou nos pulmões de 43 pessoas (algumas com asma) mais de cinco mil espécies diferentes. Nas asmáticas, o microbioma era diferente daquele das saudáveis, especialmente pela maior presença de bacteroidetes, microrganismos encontrados no solo, na água do mar, na pele e no intestino humano.

Por mais sugestivas, essas relações entre bactérias e asma são associações, não provas definitivas. A questão é: os asmáticos teriam sistemas imunológicos que os tornariam suscetíveis à colonização por determinados germes? Ou seriam esses germes os causadores da asma? Haveria possibilidade de prevenir a doença administrando probióticos que modificassem o microbioma da criança?

Fonte: http://drauziovarella.com.br