Pelo menos 14 países da Europa estão em alerta contra surtos de sarampo. A doença altamente contagiosa se espalhou por quase 7,5 mil pessoas e matou pelo menos 35. Erradicado no Brasil há 11 anos, o mal pode voltar a circular se o índice de vacinação continuar caindo. A baixa na imunização não é exclusividade do sarampo. O Ministério da Saúde amargou, em 2016, a pior taxa de cobertura vacinal em 12 anos: 84%, 11 pontos percentuais a menos do que os 95% propostos na meta da Organização Mundial de Saúde (OMS).

A capital federal, apesar de ter um quadro mais otimista, segue a mesma tendência. Entre 2014 e 2015, as seis principais vacinas tiveram queda na cobertura. No ano passado, a adesão a algumas proteções voltaram a subir, mas, ainda assim, continuam fora da meta, como a imunização contra o rotavírus, a hepatite A, o sarampo, a rubéola e a caxumba. A Secretaria de Saúde admite a variação e pede que as cadernetas sejam mantidas atualizadas.

As vacinas pentavalentes — BCG, pneumocócica, meningocócica C, tríplice viral e contra a poliomielite — tiveram queda. A pneumocócica, por exemplo, apontou redução de 9,5 pontos percentuais. A tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) caiu 6,37 pontos. No ano passado, a proteção contra a hepatite A ficou 20,9 pontos abaixo da meta de 95%. Fechou o ano com 74,1% de cobertura.

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Campanha

O fortalecimento de grupos antivacinação e a divulgação de mitos sobre a eficácia e a segurança da imunização prejudicaram a procura. O Programa Nacional de Imunização (PNI) destaca que, desde 2013, vacinas contra caxumba e rubéola estão cada vez menos populares. Especialistas temem que os bolsões de gente sem proteção desencadeiem surtos de várias doenças.

Esse é o medo também da autônoma Sirlei Almeida Lopes, 34 anos. “Sempre venho ao posto tirar dúvidas, esclarecer notícias e perguntar como devo agir”, explica a moradora da Estrutural. A caderneta do filho dela, Gustavo Henrique, 6 meses, está atualizada. “Faço isso por ele, por mim e pela comunidade. Não podemos nos arriscar”, ressalta.

Os mapas epidemiológicos, documentos que monitoram a proliferação das doenças, mostram os impactos da baixa adesão à vacinação. A caxumba registrou 2.363 casos no DF no ano passado. A meningite apresentou a mesma tendência. “Após o término das campanhas, as pessoas podem e devem comparecer às salas de vacinas com seus cartões para atualizá-los, ou mesmo sanar dúvidas”, ressalta a Secretaria de Saúde, em nota.

Os profissionais da Vigilância Epidemiológica e Imunização estão finalizando o balanço da campanha de vacinação encerrada na última semana. Apenas em março de 2018, teremos uma avaliação da cobertura vacinal do ano de 2017, mas já há indícios do cenário atual. “Comparando o período de janeiro a julho de 2016 com o mesmo período de 2017, notamos que há muita variação entre o número de vacinados”, adianta a pasta.

Noção do risco

Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), é categórico: as doenças estão controladas temporariamente, por isso, a vacina é importante para o país continuar sem os males que já são evitáveis. “As pessoas, hoje, não vivenciam sarampo, difteria, não veem as sequelas da paralisia infantil. A percepção de risco, então, vai caindo. Essas conquistas são frutos da vacinação”, lembra.

Ele tem razão. Desde 2000, o DF registrou apenas dois casos de sarampo, por exemplo. Os últimos óbitos ocorreram em 1990, quando 19 pessoas morreram, segundo dados do Ministério da Saúde. No mesmo período, as doses da vacina tríplice viral ficaram mais populares. “O essencial é manter a vacinação de rotina. O grande desafio é deixar afastadas as doenças eliminadas, numa situação em que o risco seja percebido como pequeno”, destaca Renato.

Fonte: https://www.hospitalsiriolibanes.org.br